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Onde está a Liberdade?

dez 06 2012 Published by under Fábula

Passaro Cantando

Um singelo pássaro tem a sua simples vida resumida a um pequeno espaço de uma fajuta gaiola enferrujada. Para ele o mundo era apenas o que se passava a sua volta. Não imaginava a miríade de coisas e lugares existentes pelos quatro cantos do globo. Contentava-se com a fartura de água, comida e a atenção do tosco dono. Cantava alegremente a todo instante, era o seu sorriso ao sentir o entusiasmo do companheiro. Para ele só havia a sua rotina, nada mais. Não se preocupava com a morte, pois não sabia da existência, sequer podia imaginar que um ser descendia de outro. A prisão o privou de quase tudo. Era um analfabeto do viver.

Certa manhã, um pássaro, da mesma espécie, ao passar voando pelas redondezas escutou o chamado alegre de um irmão. Não titubeou, pousou sobre uma frondosa mangueira. Observava atentamente, esperava um novo chamado. O passarinho da gaiola deixou uma suave melodia se perder pelo horizonte. Na pura emoção ele de cá respondeu. Um silêncio eterno apoderou-se do local, o pássaro preso congelou-se ao ouvir algo que até então nunca havia escutado, o outro esperava uma resposta.

- Mas o que será isso? – indaga o pássaro da gaiola.

O outro não aguentou a demora e soltou um alto e estridente canto. O da gaiola respondeu timidamente, estava com medo, não imaginava o que poderia ser. Da mangueira o bichinho voou para um galho seco de uma pinheira. Pôde em fim avistar o ser engaiolado. Voou e pousou sobre o fio de um varal. Estava frente a frente. Se antes cantavam, passaram a se comunicar no linguajar da espécie.

- O que é você? – pergunta o pássaro da gaiola. – O que você quer aqui? O que você quer comigo?

- Calma… sou da paz… Meu nome é Cri-Cri. Qual é o seu nome mesmo?

- Nome? Meu nome? Eu não tenho nome. Para que nome?

- Você não tem nome? Vou te dá um nome. De agora em diante você se chamará “Tem Café Aí”.

- Por que esse nome?

- Hoje ao acordar escutei um pássaro cantando deste jeito: “Tem café aí! Tem café aí!”. Achei bonito.

- Para mim, tanto faz, nunca tive um nome mesmo.

- Gostei de você.

- Esta é a primeira vez que consigo entender outro ser. Um bicho grande sempre solta um largo sorriso quando estou a dedilhar minhas canções. Será se ele me entende? Quando o vejo feliz continuo a cantar, isso me deixa alegre. Eu gosto dele.

- Você não tem saudade da liberdade?

- Não entendi. De que você está se referindo?

- Sair voando pelo céu; ir se banhar nos riachos; conversar e namorar as passarinhas…

- E existem essas coisas?

- Como você parou aí dentro?

- Que eu me lembre, eu sempre estive aqui.

- Então você foi pego ainda no ninho. Que dura sina.

- Eu gosto da minha vida.

- É porque ainda desconhece as maravilhas do mundo. Você tem que conhecer a liberdade, sair por aí a apreciar as belezas que a natureza nos proporciona. Tente fugir dessa gaiola.

- Você me deixou confuso.

- Eu posso comer um pouco dessa sua comida?

- Se conseguir apanhá-la, sirva-se.

- Na vida tudo dar-se um jeito.

O pássaro se empanturrou. De papo cheio disse:

- Foi bom conversar com você. Pense no que eu lhe falei. Ser livre é bom demais.

O dono do passarinho preso ao escutar a cantaria saiu ao quintal para ver qual o motivo daquela alegria. O passarinho solto ao notar a presença indesejada do humano não hesitou e se mandou, tinha aversão à prisão.

- Que passarinho que canta bonito… Vou armar um alçapão, pois quando ele aqui retornar o pegarei para mim – disse o humano alegremente.

O pássaro não retornou mais. Passado alguns dias, o rapaz resolveu retirar a armadilha. Ao erguer o alçapão, a porta da gaiola suspendeu junto. Recolocou a gaiola no prego sem notar o deslize.

O pássaro lembrou-se do amigo. “Fuja! Vá conhecer a liberdade”. Ele queria sair, mas ao mesmo tempo tinha medo. Queria e não queria. O Diabo mandava partir, o Anjo pedia para ficar. Esteve na enrola da indecisão por alguns minutos.

- Que se dane tudo! Vou conhecer esse tal mundo. Quero-me a liberdade de volta.

Bateu-lhe as enferrujadas asas e sem rumo cavalgou pelo ar fresco do dia a contemplar as belezas dos vales, das serras e dos animais. Ele encontrou pelo caminho vários pássaros da sua espécie, nenhum sequer notou a sua presença, era um fantasma em meio a uma multidão. Pela primeira vez ficou frente a frente com um ser do sexo oposto. O amor germinou, cresceu e morreu em segundos. Tantos sentimentos que sentiu o coração crescer a ponto de querer sair pela boca, murchar a ponto de sumir, e tremer a ponto de quase o levar a morte. Esteve apaixonado, esteve decepcionado, por fim, amargurado. A passarinha o ignorou por completo.

- Que liberdade é essa que nos faz sofrer? Ele tinha me dito que a liberdade era algo maravilhoso, mas não consigo vê-la. Quem sabe eu ainda não a encontre?

Continuou a voar, voou sem rumo e sem direção, tudo era novidade, não atinava aos perigos do mundo, aos perigos da liberdade, pois no mundo onde há caça existem os famigerados caçadores, a liberdade de um termina no apetite desmedido do outro.

- Estou com fome… – a barriga dava seus sinais, cobrava o alimento. – Mas comer o quê? Não vejo nada em que posso saciar minha fome.

Ele não fora treinado para esse tipo de vida, não detinha as artimanhas para ter êxito. Lembrava-se com saudade da prisão, lá sim ele podia cantar feliz, cantava para alegrar o dono, sentindo-se satisfeito por servir. Estava em apuros, sequer imaginava como voltar, não conhecia o caminho de casa. Chorava mansamente, naquele instante pensou no pior, mesmo sem conhecer a morte, pela primeira vez sentiu a friagem negra do medo. Viu um inseto passar voando, na sua loucura de fome o instinto o lançou a captura da presa, sem habilidade foi humilhado pelo pacato ser. Os passarinhos pararam para apreciar a cena, viram quando o inseto ao realizar um zigue-zague o fez enterrar a cara no chão de terra batida, alegremente, sorriram os pássaros, inclusive a fêmea que o fez ficar encantado em momento anterior, a própria em um voo suave e rasante apanhou o pequeno inseto sem muito esforço. O pobre ficou humilhado. A fêmea levou a presa ao chefe do bando e a colocou de bico a bico no dele.

- O que você está fazendo em minha área? – pergunta o chefe em tom bravo. – Parta já do meu território, pois não quero te ver por aqui. Se ousar em permanecer, saberá do que eu sou capaz.

- Isso é um idiota, não sabe sequer capturar um inseto – falou a fêmea enquanto paparicava o chefe.

Sem muito pensar, apenas impelido pela força do medo, saiu a voar sem rumo. Desejava copiosamente retornar a sua querida gaiola, chorava por não saber como. De repente foi sacudido por um forte grito.

- Saia daí agora!

De imediato ele lançou ao encalço do outro pássaro.

- O que foi que aconteceu?

-Entre na copa daquela árvore.

- Para que tudo isso?

-Você é cego? Um perverso gavião estava preste a lhe dá o bote. Também, viveu todo esse tempo enclausurado em uma gaiola, não tem experiência de mundo. Por que você chora?

- Queria voltar para minha gaiola… Mas não sei o caminho.

- Você não se lembra de mim? Sou Cri-Cri.

- É você mesmo? Que bom lhe encontrar.

- Vamos, vou lhe guiar até a sua casa. O bom é que eu encherei o meu papo. Estou com uma fome…

O brilho voltou ao olhar do pequeno pássaro. Em fagulhas de tempo a angustia devastadora cedeu lugar ao sorriso e ao alívio da felicidade. O brilho nos seus negros olhos trouxe a luz ao tempero áspero e cinzento dos momentos anteriores.

- Você quer antes do seu retorno ao seu doce cárcere que eu te mostre as belezas deste mundão velho?

- Não. Eu já conheci o suficiente. Hoje sei o que almejo para minha vida. A felicidade para uns não é a felicidade de outro, eu posso ser feliz com pouco, outro infeliz com muito, a felicidade não se encontra na liberdade dos passos, mas na liberdade dos belos sentimentos.

- O gavião já bateu asas. Acompanhe-me! – saiu a voar. – Em pouco tempo estaremos lá.

Ao chegar, encontrou a gaiola no prego com a portinha aberta. A esperança do dono vislumbrava a volta do amiguinho. Também armou um pequeno alçapão.

- Vou entrar para a gaiola e esperar que ele venha.

- Não! Vá e pise no alçapão e curtirá a magnífica adrenalina.

- Eu devo? Então eu vou sentir esta tal de adrenalina.

- Neste mundo há de tudo… até um ser que sonha em ser engaiolado. Vá lá e pise naquela geringonça.

O pássaro voou e ficou sobre o alçapão, olhou para o amigo e em um simples salto pisou na madeira, que acionou um dispositivo, que fez a tapa descer com violência, que o privou dos ares, que o recolocou na antiga vida e que o fez assustar.

- Gostei desta danada adrenalina.

- Você precisa sentir a fuga das garras de um temido gavião, o coração acelera, o sangue corre loucamente pelas veias, mas ao final sobra uma satisfação gostosa.

- E agora o que eu faço?

- Espere. Não foi você quem quis a prisão? Agora eu vou comer a comida que está na gaiola, por isso que eu te mandei entrar aí, desta forma sobraria o alimento para mim.

- Você conhece mesmo as malandragens do mundo.

Fartava-se enquanto papeava com o amigo. Um estalar de gravetos, um barulho, a porta dos fundos da casa abria-se, de lá um ser com sorriso farto nos lábios corria ao encontro da gaiola. O passarinho na pura explosão da adrenalina, desbaratado, conseguiu sair da gaiola, e na loucura voou ao céu cantando:

- Breve eu voltarei! Breve eu voltarei! Breve eu voltarei, amigo!

O homem ficou encantado com aquele canto.

- Por pouco aquele danadinho seria meu. Olhe quem está aqui! O fujão voltou. Você nunca mais sairá desta gaiola, pois meus cuidados serão redobrados. Estava com saudade das suas melodias. Chorei muito neste tempo que ficou a vagar pelo mundo. Um amigo me disse que viu você perambulando por sobre aquela mata verde. Estive lá a sua procura, mas não o encontrei. Deus escutou as minhas preces.

O homem recolocou comida e água nos compartimentos da gaiola, pegou o pássaro na mão, olhou bem para ele, soprou a cabeça do pequeno animal, passou o dedo devagar sobre a plumagem da cabeça e o recolocou na gaiola.

- Agora eu quero ver você fugir novamente… – amarrou com um pedaço de barbante a porta.

O passarinho ao sentir o entusiasmo do amigo retribuiu a alegria que sentia com belas melodias.

Moral da história: “Na vida a liberdade se encolhe frente às necessidades; a liberdade total não existe enquanto houver dependência; para o homem a liberdade total só se encontra nos pensamentos”.

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Fábula – Escolha Difícil – Os Cabritos e os Lobos

out 02 2012 Published by under Fábula

No mundo há os começos, os fins e os recomeços. Nessa troca intensa de acontecimentos, os dias nascem constantemente, momentos renascem ininterruptamente. A estrada alonga-se para uns, chega ao fim para outros e se abre para muitos. É a vida com suas curvas, suas retas, seus declives, seus aclives, suas alegrias e suas desilusões rompendo a passos de formiga e velocidade de leopardo.

Pelo espetáculo lindo e verdejante de um majestoso vale pastava um rebanho de cabras; animais brancos, animais negros, animais misturados. Os bichos se fartavam naquela magnânima manhã de primavera. O líder do grupo, por sinal o maior dentre todos, cifres grandes, barbicha enorme, olhos de fera, permanecia atento, abaixava e apanhava o alimento, mastigava-o vagarosamente, tinha sempre a cabeça erguida na busca de um simples sinal que representasse perigo. Os demais pastavam providos de despreocupação.

O vento havia parado, o sol ardia forte. O líder parecia prever algo, bastaria um único pressentimento e…

- Corram! – berrou o grande patriarca.

Um singelo balancear da relva baixa o fez agir abruptamente. Conhecedor e experiente não titubeou sequer um segundo. O rebanho em um único estalo, como um projétil que se lança ao espaço após o gatilho acionado, debandou em correria.

- Para as montanhas! – acrescentou.

Do nada sugiram vários lobos, esses se lançaram na perseguição do que poderia ser o almoço do dia.

- Corram! Corram! – voltava a berrar o poderoso líder.

A matilha cortava o ar feito relâmpago, trazia na sua força a ferocidade carnívora dos sanguinários predadores.

- Vamos! Vamos! – uivava o lobo pai – Hoje teremos comida farta. Avante, meus nobres companheiros!

Os cabritos sentiam a frieza gelada da derrota. A matriarca do grupo aos poucos diminuía a velocidade.

- Vamos! Vamos! Não desanime! Não fique para trás! Vamos conseguir! – o líder voltava a berrar.

- Já estou velha, resta-me pouco tempo de vida, é melhor me sacrificar a por em risco a vida dos nossos jovens. Já vivi o bastante, deixe que eles também assim os façam. Estou cumprindo com a lei natural das coisas. Meu fim será a prolongação da vida de outros. Foi maravilhosa a vida ao lado de vocês. Fujam! Salve o nosso rebanho!

Os lobos logo perceberam a fragilidade daquele cabrito, a horda não hesitou no ato, todos em um simples olhar se lançaram a captura da presa.

Os demais cabritos chegavam a serra e em saltos tentavam se posicionar o mais longe possível das feras. O grande chefe ficou sobre uma rocha a observar o duelo.

- Lá está a nossa alimentação!  Vamos caçá-lo! – uivou um dos lobos.

-Vamos, você consegue! – berrou o chefe dos cabritos.

A grande matriarca aumentou a velocidade, corria em zigue-zague, tentava em vão se safar da dura sina. Os lobos sabedores da vitória, apenas cercava a vitima, o cansaço dela era notório.

- Meus queridos, para mim, não dá mais, já não tenho forças para suportar o cerco. Obrigada por tudo. Agora vão, é chegada a hora difícil da partida – sentencia a matriarca em perigo.

O líder do rebanho tinha em pranto um olhar triste de fim de tarde. Impotente diante os acontecimentos tremia os nervos por não poder fazer nada perante a cena macabra que se desenrolava perante os olhos.

- Vamos! – berrou o líder. – Perdemos a batalha.

- Melhor perder uma peça da nossa família a por em risco todo o nosso rebanho – respondeu a presa rodeada por lobos famintos.

- Vamos! – o grande líder baixou a cabeça e seguiu serra acima acompanhado pela fileira de cabritos tristes e de cabeça baixa.

- Ao ataque! – uivou um dos lobos.

Moral da história: “Em certos momentos, ceder, ou perder algo é melhor e mais inteligente do que colocar em risco todo o sistema, toda a estrutura construída até então”.

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Fábula / O bravo Leão

set 13 2012 Published by under Fábula

Leão

- Olá, Leão! – canta o grilo ao pé do ouvido do Rei da Floresta.

A fera abriu apenas um dos seus impactantes olhos, fechou-o novamente e se perdeu no seu descanso.

- Leão, o senhor sabia que andam falando muito mal da sua importante pessoa por aí?

- Deixe-me dormir em paz! Vá procurar o que fazer!

- Leão, toda a selva o teme! Os bichos falam que o senhor é o ser mais perverso de toda a Natureza.

- Será?

- Ontem mesmo o senhor deixou uma família de zebra órfã de pai. Como o filhozinho dela estava chorando. É de cortar o coração.

- Fazer o quê? A vida é assim mesmo.

- Os animais estão querendo unir forças contra o senhor. Vão pedir para que construa uma cadeia para o senhor.

- Quer dizer que a culpa é somente minha?

- Sim! Pois não é o senhor que mata? Um bando de urubus me disse que o senhor é muito perverso. Você mata mães, pais, velhos e até filhotes.

- Faço uso dos meus instintos.

- As hienas estão falando aos quatro cantos que o senhor deveria ser engaiolado, pois já matou muitos e continuará a matar se nada for feito.

- Pois bem, grilo, ser abominável do sono, quanto mais precisamos dormir é que você vem nos incomodar. Se mato é porque tenho fome, e minha família também necessita se alimentar, fui feito desta forma, sou predador. Mas diga aos urubus e as hienas que a culpa não deve cair apenas sobre meus ombros, eles também são culpados como a mim. Após minha caça, após me fartar, saio e deixo o restante para eles. Se não fosse meu esforço, essa cambada de preguiçosos morreria de fome. Você não acha que eles são culpados também?

- Olhando por esse ponto… É o senhor tem toda razão.

- Agora vá! Deixe-me em paz. Preciso descansar, pois logo mais terei que voltar a caçar. Olhe bem para onde anda, uma pata desavisada pode causar muitos estragos.

Moral da história: “Para cada caso existem vários pontos de vistas, olhar apenas para um, esquecendo ou ignorando os demais, certamente alcançaremos falsas verdades, ou mentiras verdadeiras”.

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